Seu Dotô - Eliane Aparecida Bacocina

"Seu dotô, só me parece
que o sinhô não me conhece".
Assim diz o poeta Patativa do Assaré.
Não me conhece mesmo, Seu Dotô.
Não vestiu os meus sapatos.
Não acompanhou minha luta
e não sabe o quanto batalhei
pra até aqui chegar.
Meus pais viveram na roça.
Não puderam estudar,
Mas mesmo com pouco estudo
Não deixaram nada faltá.
Minha mãe sempre dizia:
"Minha filha, nunca deixe-se abater".
Por mais que seja difícil
Um diploma você vai ter.
E assim segui meu caminho.
Decidi desde pequenininha
Por meio das brincadeiras:
"Professora eu vou ser".
De ensinar as bonecas e os franguinhos
Que da granja meu pai trazia
Aprendi a ensinar as crianças
Tarefa que nem sempre era simples
Mas com dedicação eu seguia.
Pessoas não são bonecos.
Tampouco são marionetes
Que podemos manipular.
Na mente de uma criança
Descobertas começam a pipocar.
Não tem como controlar, 
muito menos "doutrinar".
Sabe de uma coisa, Seu Dotô?
É preciso pesquisar
como é que se aprende
para bobagens não sair a falar.
Muitos pesquisadores e educadores
puseram-se a trabalhar,
estudando e buscando caminhos
para ensinar a pensar.
Um deles é Paulo Freire
que o senhor quer expurgar.
Conhecido no mundo inteiro
com experiências divulgadas 
e para a qualidade da educação utilizadas.
Oh, que tristeza!
No Brasil, se perguntarmos quem é ele
Ninguém sabe o que falar...
Há outros educadores também:
Piaget, Vigotsky, Freinet...
Por acaso já ouviu falar?
Eu também não os conhecia
quando comecei a lecionar,
mas hoje me vejo transformada
com aquilo que fui buscar
em faculdade de Pedagogia,
Especialização, Mestrado e Doutorado,
que graças à educação pública
eu pude frequentar.
Frequentei tudo isso.
Hoje sou Doutora.
Mais Doutora que o Seu Dotô com quem me ponho a conversar.
Nunca usei drogas não.
Nem aulas fiquei a matar,
Porque na universidade pública
os professores estão sempre a nos cobrar.
Vi alguns "filhinhos de papai"
que ao invés de ir às aulas
outras coisas iam procurar,
mas não generalize, Seu Dotô.
Isso tem em todo lugar.
E se a escola não abordar alguns assuntos,
a família não sabe orientar.
Onde é que vão aprender?
Na rua, do jeito errado
E não vão ter em quem confiar.
Vou parando por aqui.
Senão algum palavrão vou soltar.
E não quero rasgar meus diplomas
que conquistei com muito esforço
e oportunidades sem par.
Convido o Seu Dotô a conhecer minha trajetória
E de tantos como eu,
educadores guerreiros
que nada têm a se envergonhar.
Fazemos o que vocês, doutores de araque,
deveriam se dedicar,
ao invés de ficarem instigando a sociedade
a nos atacar.
Continuo minha luta.
Não vou me calar.
"A educação é a arma mais poderosa
para mudar o mundo".
Com Mandela vou sempre entoar.
Agradeço, Seu Dotô,
pela justa raiva que me fez aqui colocar
à sua frente essas palavras.
Espero que com elas possa 
suas atitudes repensar.

Eliane Aparecida Bacocina
(em intertextualidade com o poema "Seu Dotô me conhece", de Patativa do Assaré).

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